De repente, aqui sozinha, pensando nos dias frios em que tenho vivido, me deu uma saudade. Uma não, várias. De coisas que foram se perdendo no meio do caminho, com o passar dos anos, com o amadurecimento, com as responsabilidades e afins. Valores que existiram e acabaram esquecidos. Depois de um tempo, vamos ficando mais complexos, mais exigentes, mais chatos, mais mesquinhos. E coisas pequenas, porém profundas, que atingiam o íntimo das nossas almas, foram se apagando, apagando... e se perderam no correr da vida.
Poemas, tantos... Como me tocavam. Lia, relia, copiava, compartilhava, escrevia, declamava... Mas aí, perderam a graça... De repente, já não tinham mais a qualidade artística que eu procurava. Me lembro de como gostava daquelas poesias mais rebuscadas, palavras pouco conhecidas, versos românticos, tristes, falando de amor impossível, morte, solidão. E agora, se paro pra ler um, encho o saco, não me identifico mais, não sinto nada. (Só as coisas realistas, agora, me abalam.) Mas eu sinto falta daquele sentimento... Daquele sentimento de estar lendo algo apenas por aquilo que ele é, não por ser um texto aclamado, de um escritor reconhecido, nem por ser uma grande obra literária, mas por conter um pedaço de mim, por traçar meus pensamentos mais confusos e me fazer encontrar um lugar seguro...
E assim, músicas toscas, filmes babacas, até abraços e palavras de amigos, até aqueles passeios a pé, olhando as árvores, o sol e os bancos das praças. E os sonhos que essas imagens me traziam. Tudo foi paralizando, petrificando dentro de mim.
Que parte de mim morreu durante esses anos? O que foi que esmagou isso, até não sobrar nenhum pedaço?
Quando penso nisso, sinto vontade de chorar.
Fico encarando os fatos e vendo como a vida me endureceu. Como as circunstâncias me fizeram congelar as coisas mais puras que existiam dentro do meu coração. A liberdade para expressar quem eu era, o que gostava, sem cuidado algum... Sem me importar se iam me achar banal ou desinteressante, comum, simplória. Isso não importava, até porque eu não pensava que iam achar isso... Mas aí, com o tempo, fui vendo como tinha que ser, essas mudanças todas foram ocorrendo dentro de mim, rapidamente, arrancando tudo, deixando um vazio enorme, devastação, difícil de preencher. E, mesmo que eu não estivesse aceitando, e me esforçasse pra segurar todas aquelas coisas que estavam indo, tentasse agarrá-las com todas as minhas forças, já não tinha controle algum sobre elas. Não as possuía mais, não faziam mais parte de mim. E isso só trouxe um peso a mais à vida, uma cara mais feia. Uma coisa mais dolorida e inconsolável, ruim de tocar.
Se houvesse uma maneira, não de voltar atrás e corrigir tudo, porque sei que não conseguiria, mas de resgatar isso tudo que era meu e me dá um aperto agora... Se eu soubesse onde foi parar, onde está guardado, se me perdoaria e me aceitaria de novo... Se voltaria pra mim e embalaria meus sonhos outra vez, e me colocaria no colo, enxugaria as minhas lágrimas, tudo de novo... Se eu pudesse trazer de volta pra deixar de sentir essa falta... Ah, você não sabe como seria bom...
Daia, 22:06, 18/02/08