Segunda-feira, Março 08, 2010

confissão

Mais um pouco de "Um retrato do artista quando jovem", de James Joyce.


— Olhe aqui, Cranly — disse. Você me perguntou o que eu faria e o que eu não faria. Eu lhe direi o que farei e o que não farei. Não servirei àquilo em que não acredito mais quer isso se chame minha família, minha terra natal ou minha Igreja; e procurarei me expressar por meio de uma certa forma de vida ou de arte tão livremente quanto possa e tão totalmente quanto possa, usando em minha defesa as únicas armas que me permito usar: o silêncio, o exílio e a astúcia.

Cranly o segurou pelo braço e o fez dar uma meia-volta de modo a se voltar de novo para Leeson Park. E com um riso meio manhoso apertou o braço de Stephen com a afeição de um irmão mais velho.

— Astúcia francamente! — disse ele. — E isso é você? Meu pobre, pobre poeta!

— E você me fez lhe fazer essa confissão — disse Stephen, emocionado com o seu gesto — da mesma maneira em que já lhe confessei tantas outras coisas, não é verdade?

— É, meu filho — disse Cranly ainda alegremente.

— Você me fez confessar os medos que tenho. Mas vou lhe dizer também aquilo que não temo. Não temo estar só ou ser rejeitado por um outro ou abandonar o que quer que eu tenha que abandonar. E não tenho medo de cometer um erro, até mesmo um grande erro, um erro que dure toda a vida e quem sabe tão longo mesmo quanto a eternidade.

Cranly agora novamente com uma expressão grave afrouxou o passo e disse:

— Só, inteiramente só. Você não tem medo disso. E você sabe o que esta palavra significa? Não somente estar separado de todos os outros mas não ter um só amigo.

— Correrei o risco — disse Stephen.

— E não ter uma pessoa qualquer — disse Cranly — que pudesse ser mais do que um amigo, mais até do que o mais nobre e mais verdadeiro amigo que um homem jamais teve.

Suas palavras pareciam ter tocado profundamente uma corda sensível de sua própria natureza. Teria falado de si mesmo, de si mesmo como era ou desejava ser? Stephen observou seu rosto por alguns momentos em silêncio. Havia ali uma tristeza fria. Ele falara de si mesmo, de sua própria solidão que tanto temia.

— De quem você está falando? — perguntou Stephen finalmente.

Cranly não respondeu.

Quinta-feira, Fevereiro 25, 2010

dos escritores


"Eu disse que para alguns escritores a literatura deve ser doce e edificante, isto é, suficientemente açucarada e boa para agradar paladares delicados e refinar moral e espiritualmente o leitor, mas que o escritor não era um confeiteiro de bolos nem um pedagogo, os bons escritores, como Sade, enchiam o coração e as mentes dos leitores de medo e horror, porque a vida era isso, medo e horror."


Rubem Fonseca, "E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto"

Terça-feira, Fevereiro 23, 2010

trechos

Dois trechos d'Um retrato do artista quando jovem, de James Joyce. Ambos em discurso indireto livre, com uma marcada diferença na linguagem, indicando a evolução da visão de mundo do personagem Stephen: de um molequinho ingênuo e cheio de dúvidas, como qualquer criança, para um quase rapaz, intrigado e sonhador e autêntico — o embrião do artista. Très joli.


"O que havia depois do universo? Nada. Mas havia alguma coisa à volta do universo para mostrar onde ele parava antes que o lugar nada começasse? Não podia ser um muro mas podia haver ali uma linha fininha fininha em toda a volta de tudo. Era muito grande pensar a respeito de tudo e de toda parte. Só Deus podia fazer isso. Ele tentou imaginar que pensamento grande devia ser aquele mas só conseguia pensar em Deus. Deus era o nome de Deus assim como o seu nome era Stephen. Dieu era o nome francês para Deus e esse também era o nome de Deus; e quando alguém rezava a Deus e dizia Dieu então Deus sabia logo que era uma pessoa francesa que estava rezando. Mas embora houvesse nomes diferentes para Deus em todas as diferentes línguas do mundo e Deus entendesse o que todas as pessoas que rezavam diziam em suas línguas diferentes ainda assim Deus continuava sempre a ser o mesmo Deus e o nome verdadeiro de Deus era Deus."


"Às vezes uma agitação febril se acumulava em seu íntimo e o levava a perambular de noite sozinho pela avenida silenciosa. A paz dos jardins e as luzes generosas nas janelas derramavam uma força amena sobre seu coração inquieto. A algazarra das crianças brincando o aborrecia e suas vozes tolas faziam-no sentir, ainda mais intensamente do que sentira em Clongowes, que era diferente dos outros. Não queria brincar. Queria encontrar no mundo real a imagem quimérica que sua alma contemplava tão constantemente. Não sabia onde ou como a procurar; mas uma premonição que o fazia prosseguir dizia-lhe que esta imagem iria encontrá-lo, sem nenhum ato premeditado de sua parte. Eles se encontrariam tranquilamente como se tivessem se conhecido e tivessem marcado um encontro, talvez em um dos portões ou em algum lugar mais secreto. Estariam sozinhos, cercados pela escuridão e pelo silêncio: e naquele momento de suprema ternura ele ficaria transfigurado. Ele se diluiria em algo impalpável sob os olhos dela e então num instante estaria transfigurado. Fraqueza e timidez e inexperiência o abandonariam naquele momento mágico."

James Joyce, "Um retrato do artista quando jovem"
Tradução de Bernardina da Silva Pinheiro

Terça-feira, Dezembro 15, 2009

Enivrez-vous


Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.

Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.

Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, sur l'herbe verte d'un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l'ivresse déjà diminuée ou disparue, demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure il est; et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront: "Il est l'heure de s'enivrer! Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise".


Baudelaire

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

Edad

Qué se puede hacer en ochenta años: Probablemente, empezar a darse cuenta de cómo habría que vivir y cuáles son las tres o cuatro cosas que valen la pena.

Un programa honesto requiere ochocientos años. Los primeros cien serían dedicados a los juegos proprios de la edad, dirigidos por ayos de quinientos años; a los cuatrocientos años, terminada la educación superior, se podría hacer algo de provecho; el casamiento no debería hacerse antes de los quinientos; los últimos cien años de vida podrían dedicarse a la sabiduría.

Y al cabo de los ochocientos años quizá se empezase a saber cómo habría que vivir y cuáles son las tres o cuatro cosas que valen la pena.

Un programa honesto requiere ocho mil años.

Etcétera.

Ernesto Sabato, in Uno y el Universo

Quinta-feira, Outubro 15, 2009

A próxima aldeia

Meu avô costumava dizer: "A vida é espantosamente curta. Para mim ela agora se contrai tanto na lembrança que eu por exemplo quase não compreendo como um jovem pode resolver ir a cavalo à próxima aldeia sem temer que — totalmente descontados os incidentes desditosos — até o tempo de uma vida comum que transcorre feliz não seja nem de longe suficiente para uma cavalgada como essa."

Franz Kafka

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Cara B


Si cuando vuelves a casa
me ves sombrío,
dándole vueltas al vals
del desconsuelo,
ten compasión de esta falta de luz,
hoy soy una moneda que tiene dos lados de cruz.

Y si me notas lejos estando
a tu lado,
como una réplica mala
de lo que yo era,
tómate en broma mi salto mortal,
hoy soy sólo una copia y tu tienes el original.

No le hagas caso
a tanto misterio,
vos ya sabés la verdad;
que no hay nada peor para esta seriedad
que tomársela en serio.

Deja que hable
tu cercanía,
vos conocés la razón,
y no hay nada peor para este corazón
que una casa vacía.

Deja pasar
esta falta de fe,
este disco rayado que hoy solo tiene
cara B.

Jorge Drexler

hiroshima mon amour


"É preciso evitar pensar nas dificuldades que o mundo nos apresenta algumas vezes, senão, ele se tornaria irrespirável."
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Domingo, Setembro 27, 2009

je ne veux plus rien

minhas?

Nada. Não há nada de meu aqui, reparem. Mas há muito de mim nessas coisas. Provavelmente, eu sou essas coisas. Então o blog deveria chamar-se "essas coisas sou eu".

Estou triste. Mas não posso dizer por quê. As explicações são muito longas, prolixas, de modo que nem eu consigo defini-las. Mas estou triste. Como se eu pudesse chorar com um toque de violão. Triste como o céu de São Paulo em fim de tarde. E triste como eu sempre tenho sido.

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Quarta-feira, Agosto 26, 2009

Os que passam por nós correndo

Quando se vai passear à noite por uma rua e um homem já visível de longe — pois a rua sobe à nossa frente e faz lua cheia — corre em nossa direção, nós não vamos agarrá-lo mesmo que ele seja fraco e esfarrapado, mesmo que alguém corra atrás dele gritando, mas vamos deixar que continue correndo.

Pois é noite e não podemos fazer nada se a rua se eleva à nossa frente na lua cheia e além disso talvez esses dois tenham organizado a perseguição para se divertir, talvez ambos persigam um terceiro, talvez o primeiro seja perseguido inocentemente, talvez o segundo queira matar e nós nos tornássemos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada um só corra por conta própria para sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.

E finalmente — não temos o direito de estar cansados, não bebemos tanto vinho? Estamos contentes por não ver mais nem o segundo homem.


Franz Kafka, in Contemplação

Sábado, Agosto 08, 2009

O Túnel

Li o romance (que parece uma novela) "O Túnel", do argentino Ernesto Sabato, com o lápis na mão. Guardo aqui alguns trechos recortados, já muito queridos por mim, para que não se percam de minha memória (e da de quem mais quiser ler). A tradução é de Sérgio Molina.


"Se bem que nem o diabo sabe o que é que as pessoas lembram, nem por quê. Na realidade, sempre pensei que não existe memória coletiva, o que talvez seja uma forma de defesa da espécie humana. A frase 'todo tempo passado foi melhor' não indica que antes acontecessem menos coisas ruins, mas que — felizmente — as pessoas as lançam no esquecimento."

"Pensem o que quiserem: não ligo a mínima; faz tempo que não ligo a mínima para a opinião e a justiça dos homens. [...] às vezes nos julgamos super-homens, até percebermos que também somos mesquinhos, sujos e pérfidos."

"Minha experiência tem demonstrado que aquilo que a mim parece claro e evidente quase nunca o é para o resto de meus semelhantes. Estou tão escaldado que agora vacilo mil vezes antes de pôr-me a justificar uma atitude minha e, quase sempre, acabo trancando-me em mim mesmo e não abrindo a boca."

"Direi, antes de mais nada, que detesto os grupos, as seitas, as confrarias, os círculos e em geral esses conjuntos de bichos esquisitos que se reúnem por razões de profissão, gosto ou mania semelhante. Esses conglomerados têm uma série de atributos grotescos: a repetição do tipo, o jargão, a vaidade de se julgarem superiores ao resto."

"Contudo, de todos os conglomerados detesto particularmente o dos pintores. Em parte, naturalmente, porque é o que conheço melhor, e já se sabe que se pode detestar com mais razão aquilo que se conhece a fundo. Mas tenho outra razão: OS CRÍTICOS. Essa é uma praga que não consigo entender. Se eu fosse um grande cirurgião, e um senhor que nunca pegou num bisturi, nem é médico, nem imobilizou a pata de um gato, viesse me explicar os erros de minha operação, o que se pensaria? O mesmo acontece com a pintura. O estranho é que as pessoas não percebam que é a mesma coisa e que, embora riam das pretensões de um crítico de cirurgia, escutem esses charlatães com incrível respeito. Seria possível escutar com algum respeito os juízos de um crítico que alguma vez tivesse pintado, ainda que não fosse mais do que um par de telas medíocres. Mas mesmo nesse caso seria absurdo, pois como se pode achr razoável que um pintor medíocre dê conselhos a um bom?"

"Existem na sociedade estratos horizontais, formados pelas pessoas de gostos semelhantes, e nesses estratos não são raros os encontros casuais (?), sobretudo quando a causa da estratificação é algum traço de minorias."

"Meu cérebro é um fervedouro, mas quando fico nervoso as idéias se sucedem nele como em um vertiginoso balé; apesar disso, ou talvez por isso mesmo, fui me acostumando a gorverná-las e a ordená-las rigorosamente; se assim não fosse, acho que não tardaria a enlouquecer."

"mas até que ponto se pode dizer que o olhar de um ser humano é algo físico?"

"— Minha cabeça é um labirinto escuro. Às vezes há como relâmpagos que iluminam alguns corredores. Nunca sei bem por que faço certas coisas."

"Em um planeta minúsculo, que há milhões de anos corre em direção ao nada, nascemos em meio a dores, crescemos, lutamos, adoecemos, sofremos, fazemos sofrer, gritamos, morremos, morrem e outros estão nascendo para voltar a começar a comédia inútil.
Seria isso, realmente? Fiquei refletindo sobre essa idéia da falta de sentido. Toda a nossa vida seria uma série de gritos anônimos em um deserto de astros indiferentes?"

"— Mas não sei o que ganhará com ver-me. Faço mal a todos os que se aproximam de mim."

"emocionam-me os detalhes, não as generalidades."

"Todo mundo sabe que não se resolve o problema de um mendigo (de um mendigo autêntico) com um peso ou um pedaço de pão: resolve-se apenas o problema psicológico do sujeito que compra assim, por quase nada, sua tranquilidade espiritual e seu título de generoso."

"É curioso, mas viver consiste em construir futuras lembranças [...]."

"Agora penso em quanto o amor cega, no mágico poder de transformação que ele tem. A beleza do mundo! É para morrer de rir!"

"Quantas vezes essa maldita divisão de minha consciência foi culpada por atos atrozes! Enquanto uma parte me leva a tomar uma bela atitude, a outra denuncia a fraude, a hipocrisia e a falsa generosidade; enquanto uma me leva a insultar um ser humano, a outra se compadece dele e acusa a mim mesmo daquilo que denunciou em outros; enquanto uma me faz enxergar a beleza do mundo, a outra me aponta sua fealdade e o ridículo de todo sentimento de felicidade."

"Em geral, essa sensação de estar só no mundo aparece mesclada a um orgulhoso sentimento de superioridade: desprezo os homens, acho que são sujos, feios, incapazes, ávidos, grosseiros, mesquinhos; minha solidão não me assusta, é quase olímpica."

"Caminhei pela Viamonte e desci até o cais. Sentei ali e chorei. A água suja, embaixo, tentava-se constantemente: para que sofrer? O suicídio seduz por sua facilidade de aniquilação: em um segundo, todo este absurdo universo vem abaixo como um gigantesco simulacro, como se a solidez de seus arranha-céus, de seus encouraçados, de seus tanques, de suas prisões não passasse de uma fantasmagoria, sem mais solidez que os arranha-céus, encouraçados, tanques e prisões de um pesadelo.
A vida aparece à luz desse raciocínio como um longo pesadelo, do qual, no entanto, cada um pode libertar-se com a morte, que seria, assim, uma espécie de despertar. Mas despertar para quê? Essa irresolução de lançar-me ao nada absoluto e eterno foi o que me deteve em todos os meus projetos de suicídio. Apesar de tudo, o homem é tão apegado ao que existe que acaba preferindo suportar sua imperfeição e a dor que causa sua fealdade, a aniquilar a fantasmagoria com um ato de vontade própria. E costuma acontecer, também, que quando chegamos a essa beira do desespero que precede o suicídio por ter esgotado o inventário de tudo o que é mau e ter chegado ao ponto em que o mal é insuperável, qualquer elemento bom, por menor que seja, adquire um valor desproporcional, acaba tornando-se decisivo, e nos aferramos a ele como nos agarríamos desesperadamente a qualquer talo de grama diante do perigo de rolar num abismo."

"Veja que ser original é, de certo modo, apontar a mediocridade dos outros [...]."

"'Não temos o direito de pensar somente em nós. O mundo é muito complicado'. [...] 'A felicidade está rodeada de dor'. "

"tenho uma sensualidade introspectiva, quase de pura imaginação"

"procurava cegamente por alguém, por uma espécie de interlocutor mudo."

"em todo caso, havia um só túnel, escuro e solitário: o meu, o túnel em que transcorrera minha infância, minha juventude, toda a minha vida."

Reflexão n°.1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.


Murilo Mendes

Sexta-feira, Maio 22, 2009

A word is dead


A word is dead
When it is said,
Some say.
I say it just
Begins to live
That day.


Emily Dickinson

O homem, a luta e a eternidade













Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!


Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.

Murilo Mendes

Sábado, Abril 25, 2009

...

"A cada dia viver me esmaga com mais força."

cfa

Quinta-feira, Abril 02, 2009

reflexões de um menino

Às vezes a tristeza se dissipa. O céu, que costuma pairar fechado sobre sua cabeça, não perto o suficiente para que possa tocá-lo, mas não muito distante tampouco, abre uma fresta, e, durante um instante, ele pode ver o mundo como realmente é. Vê a si mesmo de camisa branca com mangas enroladas, a calça curta que quase não serve mais: não uma criança, não o que um passante chamaria de criança, está crescido demais para isso, crescido demais para essa desculpa, mas ainda tão idiota e fechado em si mesmo quanto uma criança: infantil, tolo, ignorante, retardado. Nesses momentos ele também pode ver seu pai e sua mãe, de cima, sem raiva: não como dois pesos cinzentos e amorfos sentados em seus ombros, conspirando dia e noite sua desgraça, mas como um homem e uma mulher vivendo suas próprias vidas cheias de problemas e de tédio. O céu se abre, e ele vê o mundo como é; depois, quando o céu se fecha, volta a ser ele mesmo vivendo a única história que admite, sua própria história.

Sua mãe está junto da pia, no canto mais escuro da cozinha. Está de costas para ele, os braços salpicados de espuma, esfregando uma panela sem pressa. Ele anda em volta falando sobre alguma coisa, não sabe o que, falando com sua veemência habitual, queixando-se.

Ela interrompe a tarefa; seu olhar tremula sobre ele. É um olhar pensado, sem nenhum carinho. Ela não o vê pela primeira vez. Não, o vê como sempre foi e como ela sempre soube que ele era quando não está imersa em ilusão. Ela o vê, o avalia e não se agrada dele. Chega a se importunar com ele.

É isso que teme dela, da pessoa que mais o conhece no mundo, que tem a enorme vantagem de saber tudo sobre seus primeiros anos de vida, os mais desprotegidos e íntimos, anos dos quais ele nada se lembra, apesar dos esforços. É ela quem provavelmente também sabe, já que é inquisitiva e tem suas próprias fontes, dos segredos corriqueiros de sua vida escolar. Ele teme seu julgamento. Teme os pensamentos frios que devem passar por sua cabeça em momentos como este, quando não há paixão para lhes dar cor, nem motivo para que seu julgamento seja menos que claro; sobretudo, ele teme o momento, que ainda não chegou, em que ela proferirá seu julgamento. Será como um relâmpago; ele não poderá suportar. Ele não quer saber. Tanto não quer saber que sente uma mão subir por dentro de sua própria cabeça e bloquear seus ouvidos, bloquear sua visão. Preferia ser cego e surdo a saber o que ela pensa dele. Preferiria viver como uma tartaruga em sua carapaça.

Essa mulher não foi trazida ao mundo com o único objetivo de amá-lo e protegê-lo e satisfazer suas necessidades. Ao contrário, ela teve uma vida antes de ele existir, uma vida em que não lhe cabia a exigência de lhe dar a menor atenção. Em certa época de sua vida ela o pariu; ela o pariu e decidiu amá-lo; talvez tenha decidido amá-lo antes mesmo de dá-lo à luz; mas ela decidiu amá-lo e, portanto, pode decidir deixar de amá-lo.

"Espere até ter seus próprios filhos", ela lhe diz num de seus dias amargos. "Então entenderá." O que ele entenderá? É um chavão que ela usa, um chavão que parece vir do tempo antigo. Talvez seja o que cada geração diz à seguinte, como um aviso, uma ameaça. Mas ele não quer ouvir. "Espere até ter seus próprios filhos!" Que absurdo, que contradição! Como pode uma criança ter filhos? De qualquer modo, o que ele saberia se fosse pai, se fosse seu próprio pai, é exatamente o que ele não quer saber. Não aceitará a visão que ela quer lhe impor: sóbria, decepcionada, desiludida.

"Cenas de uma vida", J. M. Coetzee
tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Quarta-feira, Março 25, 2009

O enterrado vivo

É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.


Carlos Drummond de Andrade

Sábado, Março 21, 2009

um texto

Antes que elas cresçam
Affonso Romano de Sant'Anna

http://www.releituras.com/arsant_antes.asp


Terça-feira, Dezembro 23, 2008

Um ano bom

É estranho, porque ainda não me sinto tranqüila e sinto saudade e um certo vazio que fica quando se deixa a cidade natal; mas acho que minha vida começa a se encaminhar.
Depois de passar por alguns anos adolescentes, em que só sabia sentir amargura e insatisfação, vontade de evaporar e rasgar tudo o que escrevia, agora me sinto um pouco mais estável. Como se fizesse algum sentido existir, como se não fosse tudo fatalmente terrível.
Posso perceber até certas qualidades em mim (apesar de minhas fraquezas estarem cada vez mais evidentes) e uma certa força pra transpor meus traumas. Acho até que posso conviver com a dor sem me abalar muito, e enxergar alguns pontos de luz, que me animam, que me fazem acreditar em alguma coisa que não sei o que é...
Sim, é difícil estar longe de algumas pessoas importantes hoje. Aliás, a partir de agora comecei a sentir uma certa melancolia pela estação natalina. Lembranças, claro. Mas faz parte da evolução — renunciar, recorrer a medidas nem sempre aprovadas.
Não sei até aonde vai o caminho nem as circunstâncias que ele vai envolver. Só o que sei são alguns objetivos pra alcançar. E alguém pra cuidar.
Se eu tenho alguma ambição para 2009? Que seja doce.




Quinta-feira, Junho 05, 2008

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"Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto."


cfa ...

Sexta-feira, Março 14, 2008

...










"A vida era muito dura. Não chegávamos a passar fome ou frio ou nenhuma dessas coisas. Mas era dura porque era sem cor, sem ritmo e também sem forma. Os dias passavam, passavam e passavam, alcançavam as semanas, dobravam as quinzenas, atingiam os meses, acumulavam-se em anos, amontoavam-se em décadas — e nada acontecia. Eu tinha a impressão de viver dentro de uma enorme e vazia bola de gás, em constante rotação."

caio f.

Terça-feira, Março 11, 2008

divagações













Já não tenho as mesmas ilusões e sonhos de quando era criança
De ser isso, ter aquilo, viver assim
De impressionar, ser destaque, ser grande
Quando se tem que encarar a vida, é aí que fica difícil
Imaginar é simples: tão simples, que se faz até no escuro
Mas na hora de materializar tudo aquilo, existe um abismo imenso...
E foi aí que eu percebi: deixei os sonhos caírem lá em baixo
Tão fundo, que nem lembro mais deles
Lembro, vagamente, de uma sensação de ser diferente do meu mundo
De ter um algo-a-mais, uma estranheza, raridade
De ter histórias que ninguém teve pra contar
E na ingenuidade acreditei que poderia conseguir tudo
Mas depois me deparei com o frio, a dor, a obrigação
E um cansaço imenso, me pesando as costas...
Vontade de dormir, ficar assim, não pensar
Não esperar nada de mim, nem da vida, de ninguém
Sem expectativas, reinventar um mundo livre de cobranças
Livre de olhares, livre de curiosidade alheia, inveja, admiração
Livre de satisfação, dessa necessidade
Só o sono e eu
E, se tivesse mesmo que viver, querer apenas um futuro bom
Sem luxo, sem imensa sabedoria, sem beleza escravizadora
Simplesmente o amor, o prazer, a sensação de liberdade...
Já não posso mais, enfim...
Sinto muito por todos que esperavam algo de mim:
Sou tão frágil e humana, que o peso disso me esmagou.
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Sexta-feira, Março 07, 2008

hahaha!

"O maior prazer de um homem inteligente é bancar o idiota diante do idiota que quer bancar o inteligente."


Confúcio

Quinta-feira, Março 06, 2008

Fragmento 06













Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma, mas para não ter que desabotoar o casaco.

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se a minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não encarna a substância de milhares de vozes, a fome de dizerem-se de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha ao destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência… Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, assisto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que a expender estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto andar, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui, eu, assim!..."


Bernardo Soares,
"Livro do Desassossego"

Segunda-feira, Março 03, 2008

...

"Algumas vezes eu fiz muito mal para pessoas que me amaram. Não é paranóia não. É verdade. Sou tão talvez neuroticamente individualista que, quando acontece de alguém parecer aos meus olhos uma ameaça a essa individualidade, fico imediatamente cheio de espinhos - e corto relacionamentos com a maior frieza, às vezes firo, sou agressivo e tal. É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso."


caio f.

Sexta-feira, Fevereiro 22, 2008

hope


"Temos esperanças novinhas em folha, todos os dias."

caio f.

Terça-feira, Fevereiro 19, 2008

das faltas

De repente, aqui sozinha, pensando nos dias frios em que tenho vivido, me deu uma saudade. Uma não, várias. De coisas que foram se perdendo no meio do caminho, com o passar dos anos, com o amadurecimento, com as responsabilidades e afins. Valores que existiram e acabaram esquecidos. Depois de um tempo, vamos ficando mais complexos, mais exigentes, mais chatos, mais mesquinhos. E coisas pequenas, porém profundas, que atingiam o íntimo das nossas almas, foram se apagando, apagando... e se perderam no correr da vida.
Poemas, tantos... Como me tocavam. Lia, relia, copiava, compartilhava, escrevia, declamava... Mas aí, perderam a graça... De repente, já não tinham mais a qualidade artística que eu procurava. Me lembro de como gostava daquelas poesias mais rebuscadas, palavras pouco conhecidas, versos românticos, tristes, falando de amor impossível, morte, solidão. E agora, se paro pra ler um, encho o saco, não me identifico mais, não sinto nada. (Só as coisas realistas, agora, me abalam.) Mas eu sinto falta daquele sentimento... Daquele sentimento de estar lendo algo apenas por aquilo que ele é, não por ser um texto aclamado, de um escritor reconhecido, nem por ser uma grande obra literária, mas por conter um pedaço de mim, por traçar meus pensamentos mais confusos e me fazer encontrar um lugar seguro...
E assim, músicas toscas, filmes babacas, até abraços e palavras de amigos, até aqueles passeios a pé, olhando as árvores, o sol e os bancos das praças. E os sonhos que essas imagens me traziam. Tudo foi paralizando, petrificando dentro de mim.

Que parte de mim morreu durante esses anos? O que foi que esmagou isso, até não sobrar nenhum pedaço?

Quando penso nisso, sinto vontade de chorar.

Fico encarando os fatos e vendo como a vida me endureceu. Como as circunstâncias me fizeram congelar as coisas mais puras que existiam dentro do meu coração. A liberdade para expressar quem eu era, o que gostava, sem cuidado algum... Sem me importar se iam me achar banal ou desinteressante, comum, simplória. Isso não importava, até porque eu não pensava que iam achar isso... Mas aí, com o tempo, fui vendo como tinha que ser, essas mudanças todas foram ocorrendo dentro de mim, rapidamente, arrancando tudo, deixando um vazio enorme, devastação, difícil de preencher. E, mesmo que eu não estivesse aceitando, e me esforçasse pra segurar todas aquelas coisas que estavam indo, tentasse agarrá-las com todas as minhas forças, já não tinha controle algum sobre elas. Não as possuía mais, não faziam mais parte de mim. E isso só trouxe um peso a mais à vida, uma cara mais feia. Uma coisa mais dolorida e inconsolável, ruim de tocar.

Se houvesse uma maneira, não de voltar atrás e corrigir tudo, porque sei que não conseguiria, mas de resgatar isso tudo que era meu e me dá um aperto agora... Se eu soubesse onde foi parar, onde está guardado, se me perdoaria e me aceitaria de novo... Se voltaria pra mim e embalaria meus sonhos outra vez, e me colocaria no colo, enxugaria as minhas lágrimas, tudo de novo... Se eu pudesse trazer de volta pra deixar de sentir essa falta... Ah, você não sabe como seria bom...


Daia, 22:06, 18/02/08

Terça-feira, Fevereiro 12, 2008

Vilarejo

Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção

Tem um verdadeiro amor
Para quando você for


Marisa Monte
Composição: Marisa Monte, Pedro Baby, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes